sábado, 26 de maio de 2018

Devoção ao Santo casamenteiro reinventa costumes em Barbalha






Devota de Santo Antônio, como boa barbalhense, Socorro Luna criou 'A Noite das Solteironas' ( Fotos: Antonio Rodrigues )
Barbalha. Colocar de cabeça para baixo ou tirar o Menino Jesus do colo da imagem de Santo Antônio são algumas das simpatias praticadas por quem deseja conseguir casamento. Neste Município, no Cariri cearense, estas tradições se reinventam e se somam a outros costumes criados, muitos em função do Pau da Bandeira. Neste sábado (26), as mulheres participam da "Noite das Solteironas", que abre a festa do padroeiro da terra dos "Verdes Canaviais", colocando em prática o desejo de subir ao altar.
É impossível falar do Santo casamenteiro em Barbalha sem mencionar Socorro Luna, 64, conhecida como "a solteirona mais famosa do Brasil". Advogada e professora aposentada, ela criou a "Noite das Solteironas", em 2002, unindo as simpatias pelo padroeiro junto com o tradicional Pau da Bandeira. Tem a pinga "Xô Caritó", o pó "cata-marido" e um kit com a casca da madeira que serve de mastro, oração e uma fitinha dizendo "Santo Antônio, tens piedade de nós, as solteironas". Da casca, é feito um chá, servido gratuitamente na noite da festa para quem quer arranjar noivo.
A tradição de pegar no mastro da bandeira de Santo Antônio, que será erguido neste domingo (27), é muito antiga. "Como normalmente é uma árvore medicinal, pensei em pegar uma parte para fazer simpatia", explica Socorro. Na primeira "Noite das Solteironas", as pessoas riam. Hoje, depois do dia do hasteamento da Bandeira, é o mais popular momento da Festa.
Casamento coletivo
Neste ano, 15 casais se unirão no civil na noite deste sábado (26) e, no da 3 de junho, um grande casamento coletivo será realizado, com um desfile de carros antigos, tapete vermelho, helicóptero despejando pétalas de rosas e valsa ao som da sanfona. Um luxo oferecido às pessoas que atendem dois critérios: pediram ao Santo o casório, realizando alguma simpatia, e são pobres e não têm condições de pagar.
Mas Socorro Luna continua firme em seu desejo de permanecer solteira. Não que tenha aversão a casamento, preferiu rumos diferentes para sua vida. "O que não falta é pretendente. De todas as idades, mas sou muito feliz", garante a advogada.
Ela teve que enfrentar o desejo dos pais, José Antônio de Luna e Julia Mendes de Luna, de que casasse cedo. Aos 14 anos, sua família já queria Socorro noiva, mas ela admite que sempre "enrolou", dizendo que era muito jovem para o altar. Após terminar os estudos, aos 16, começou a dar aula, no Colégio Nossa Senhora de Fátima e ganhou seu primeiro dinheirinho. "Fui para Fortaleza conhecer o mar, era um sonho em minha vida. Não parei mais de viajar", lembra.
Socorro optou por "viver a vida" ao invés de se casar logo e, por isso, se dedicou aos estudos. Depois de terminar o terceiro normal, entrou no curso de Letras e começou a ensinar Redação e Português. Também trabalhou no Hospital São Vicente, como recepcionista, tesoureira e até lavando ampolas. Depois de trabalhar em cartório, deixou o curso de Administração de Empresas e se apaixonou pelo Direito, tornando-se advogada, em 1992. Nessa correria, foi adiando noivados e até casamento. "Namorei muitos rapazes bons, bem-intencionados", conta. Ficou noiva, já tendo enxoval pronto, mas ainda tinha muitas dúvidas. Socorro, então, orou a Santo Antônio, que pediu mais paciência. "O noivo foi embora para Pernambuco, não sei se decepcionado ou aliviado", provoca.
Em sua casa, incontáveis imagens do franciscano português estão espalhadas em todos os cômodos. Muitos são presentes de amigos. Na fachada, por exemplo, azulejos portugueses com o padroeiro dão as boas-vindas. "Todo barbalhense é devoto de Santo Antônio, os pais já levavam a gente para a igreja. Nessa época, fica tão atarefado. Ele arruma alguém para casar, mas procure quem preste. O Santo vai ser culpado de tudo? Mas é para pedir para ele mesmo, quem mandou se especializar em casamento?", brinca.
Deu certo
Em 2007, a estudante Cinara Maria Mendes foi para a Festa de Santo Antônio com suas amigas. Na "Noite das Solteironas", tomou o chá feito da casca do mastro e vestiu o véu da noiva, entregues por Socorro Luna. No dia seguinte, estava na Rua do Vidéo, enquanto passava o pau da bandeira, no fim da tarde. Um dos carregadores parou o percurso e jogou uma lasca da casca na direção da garota.
Horas depois, na mesma rua lotada, sua mão encontrou a de Daniel Rolim, e se beijaram em seguida. Ali nasceu uma relação que os dois dedicam a Santo Antônio. Três meses depois, engataram um namoro, que durou cinco anos, até o noivado. Em 2013, os dois se casaram. Barbalhenses, hoje, ela é dentista e ele, advogado. Desde que se conheceram, renovam a fé no padroeiro tocando no Pau da Bandeira na mesma rua em que as mãos se tocaram pela primeira vez.
No casamento, tudo era alusivo ao padroeiro. No lugar do tradicional buquê, o casal organizou um bolo com fitas e uma aliança, como na "Noite das Solteironas". A candidata que puxar o acessório deve casar em breve. "Minha amiga que pegou já está casada", conta Daniel. Além disso, os dois serviram chá para os convidados e deram de lembrança um santinho de cabeça para baixo. O advogado, vê a festa do Santo como um momento de reencontros, fé e alegria para o povo de Barbalha.
Promessa
Se alguns conseguiram o sonhado casório, outros ainda buscam. É o caso da estudante Débora Torres, 22, que está namorando há pouco mais de um mês, depois de pedir a Santo Antônio. Será seu primeiro Pau da Bandeira acompanhada. "Minha mãe é mais grata pelo namoro que nós dois", brinca. Sua irmã caçula ficará noiva na "Noite das Solteironas", um ano depois de pedir ao padroeiro um namorado especial.

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